DESTAQUETERRA

Veículos de combate: nem fardas nem fardões, uma visão simplista de classificação

Adriano Santiago Garcia

RESUMO

Historiadores descrevem através de muitos nomes os veículos utilizados pelos Exércitos da Antiguidade seja nos carros falcados dos Persas ou carros de guerra descrita nas escrituras bíblicas o nome dos veículos, tracionados por animais ou homens, recebia batismo devido à suas características ou armas embarcadas.

A criação do tank, como engenho de guerra, ocorreu inteiramente na Primeira Guerra Mundial e teve várias classificações dos construtores e militares tais como, navios de terra, artilharia de assalto, contudo o nome, inicialmente citado, veio a se consagrar como designação genérica dos blindados.

A utilização do peso das máquinas para classificação fazia sentido até fins da Segunda Guerra em que maiores plataformas eram tracionadas por motores mais potentes, couraças mais grossas e armas de bordo de maior calibre.

O desenvolvimento dos motores, principalmente no ciclo diesel, bem como de blindagens compostas ou de aço de face endurecida permitiam que blindados obtivessem o mesmo poder de fogo e/ou mobilidade, de antecessores que dispunham de maior massa bruta.

O período da Guerra Fria e posterior efervescer de criação de uma gama de veículos para finalidades, às vezes redundantes, ou até imaginárias classificando “camelos sem nenhum deserto para viver”.

Nos dias de hoje o contexto de emprego é muito menos ortodoxo que as estruturas militares fator que coloca em xeque as classificações e denominações correntes dos veículos utilizados por forças militares.

.    Palavras-chave: Veículos, combate, poder de fogo.

  1. INTRODUÇÃO

A extensa lista de siglas, acrônimos e “apelidos” que objetivam classificar as diversas plataformas blindadas existentes no mundo, e sua carga bélica acoplada por vezes colocam o mesmo veiculo em duas ou mais categorias sem um minucioso estudo de sua capacidade/finalidade.

A utilização de veículos em combates remonta a tempos do surgimento da civilização quando o homem foi capaz de tracionar implementos, em animais ou por força humana, seu proposito bélico logo surge, sendo descrito nas epopeias, sagradas escrituras e manuscritos do ilustre Sun Tzu.

Durante a idade média europeia a figura do carro e do combatente fundem-se no Cavaleiro trazendo da palavra francesa que denomina o cavalo, “Cheval”, batiza a chamada Cavalaria.

O chegar da pólvora no velho continente decresce se importância tropas montadas com seu ponto mais baixo da curva na carnificina das metralhadoras, em 1914, armamento responsável, em grande parte, pela estabilização da frente na Primeira Guerra Mundial.

Quando do ressurgimento dos “carros de guerra”, nas planícies francesas do Some o conflito iniciava-se no nível da semântica, pois franceses e ingleses se duelam para batizar o engenho couraçado.

Apesar do General Estiene, grande líder francês e um dos responsáveis por alavancar o projeto do blindado em seu Exército, concordar com o nome de Tank o Alto Comando de seu país é de parecer que a língua francesa possuiu diversos vernáculos apropriados para nomear o invento sem necessidade de estrangeirismos.

A doutrina de cada Exército direciona e estuda a adoção ou não dos veículos de combate blindados até a Segunda Grande Guerra fornece o argumento cabal de necessidade de uma “motoblindatização” a força, se necessário.

Entendendo da necessidade de possuir veículos de combate as Forças os adquirem e os distribuem sob duas óticas distintas: quanto ao tipo de tropa ou quanto finalidade do blindado.

Engenhos motorizados são distribuídos às peças de manobra e apoio sob as mais diversas designações: livre, ligeiro, pesado, motorizado, blindado, mecanizado, cavalaria, infantaria e etc.

Os recentes conflitos derivados do fenômeno da “Primavera Árabe”, anexação da Crimeia e combate a insurgentes passam a dar utilidade a todos os blindados existentes no canário, e até a improvisação.

Figura 01- Torres de Tank T-55 incorporadas em outras plataformas móveis

As observações e atitudes recentes de empresas do setor de defesa sinalizam para que um veículo pode e deve ter diversas capacidades tornando-se como opcional sua blindagem, transporte de tropas e sistemas de armas ou apoio acoplados.

O aproveitamento, de quase, qualquer armamento disponível para utilização de acordo com seu projeto e ainda possibilitar mais funções seja talvez uma das principais razões de a palavra “Heavy” ter caído ante a “Armor” na tipificação das tropas dos EUA.

O fechamento temporário do programa de substituição do veiculo Bradley bem como as atuais diretrizes de desenvolvimento dos veículos do Exercito do EUA já contemplarem a possibilidade de veículos remotamente controlados em solo reforça um amplo estudo de forma a ratificar ou retificar as funções dos veículos a luz de sua capacidade.

O presente artigo não almeja tornar-se um divisor de aguas na milenar história dos carros bélicos, que desde muito oferecem a ação de choque as forças terrestres, mas sim ser apenas mais uma ferramenta para os que buscam compreender a evolução dos veículos de combate moderno.

  1. Desenvolvimento

O ambiente em que as forças militares operam é conhecido como VUCA (Volatility, Uncertainty, Complexity and Ambiguity), fator que se reflete diretamente nas máquinas automotores.

Rompendo com as classificações estéticas, preocupadas com forma e peso, ou aquelas que consideram taxativo a composição dos meios de deslocamento, sobre rodas (SR) ou sobre lagartas (SL), como se dois grupos rivais fossem, as laudas doravante irão se referir aos carros militares como: veículos de combate (VC) e veículos de apoio (VAp)

Os veículos de combate são aqueles que cumprem a tarefa principal de desencadear fogo tenso e observado sobre, principalmente, outros VC de capacidades similares, com a finalidade de destruir o alvo ou causar danos suficientes para sua retirada de combate e, ainda, engajar tropas, instalações/fortificações.

Veículos de apoio (VAp) são construídos ou cumprem tarefas, relacionadas ao transporte de tropas, fogo indireto, de morteiros e obuseiros, logísticas de suprimento, manutenção, evacuação de feridos, ou ainda, as relacionadas ao comando e controle, guerra eletrônica e cibernética e qualquer outra tarefa que não se enquadre no escopo descrito no paragrafo anterior.

A finalidade desse conceito é ser mutável e ligado principalmente à missão que foi atribuída ao veículo tornando-se assim uma classificação flexível e introduz o entendimento de Efeito Máximo (Ef Max) ou seja, a faixa de amplitude de produção de um dano eficaz pelo armamento da VC.

Figura 02- VC e VAp, respectivamente, levando em consideração a dotação de um sistema de armas de tiro tenso

  • VC Remote Weapon Station (RWS)

As RWS surgiram como evolução dos conhecidos reparos, suportes destinados a se montar armas com proposito de facilitar o manejo e operação do armamento que foram acoplados nos carros civis no inicio do século XX.

Muitos destes dispositivos foram instalados de maneira a suplementar o poder de fogo de outros veículos e dar mais precisão a sistemas há muito utilizados em forças terrestres.

Figura 03- RWS com armamento 7,62mm e 12,7mm no mesmo reparo.

A suíte optronica de observação através de câmeras diurnas e termais, aferição de distancia através laser forneceu aos calibres mais comuns das tropas OTAN com uma Ef Max entre 300 até 1500m, considerando os calibres 7,62mm e 12,7mm.

A abertura de possibilidade de adoção de veículos não tripulados recém-apresentado pelo Exército dos EUA bem como a possibilidade de integração destes reparos em veículos civis são janelas de emprego que dão protagonismo aos RWS.

Figura 04- RWS demostrando sua versatilidade de emprego

As RWS foram integradas em um grande rol de veículos em especial os de apoio para transportes de tropa que, apesar de seu visual robusto, tem por tarefa principal levar fuzileiros até um determinado ponto da ação e apoia-los com o fogo do RWS e por este motivo não se configuram como VC.

  • VC Ef Max 1000 até 2000m

Tais tipos de VC são aquelas dotadas de um armamento de maior calibre, entre 25 mm até 40 mm como as VC Alvis, Britânicas, e Bradley, as quais apresentaram um expressivo sucesso na operação Desert Storm (1991).

Apesar de desprezado pelos amantes dos “grandes tubos” os calibres a partir do 25 mm, em testes, são capazes de abrir brechas de aproximadamente 75 cm de diâmetro em paredes de tijolos de concreto reforçado com vergalhões de aço.

Figura 05- Muro destruído por tiros 30 mm e M-113 com Torre 25 mm

O conceito foi aperfeiçoado por Israel ao integrar as torres de tecnologia similar ao carro Merkava III em veículos M-113 com canhão 30 mm proporcionando poder de fogo e flexibilidade.

O limitador deste tipo de VC é também seu maior trunfo pois a limitação de dano e alcance imposta por seu calibre é recompensado em uma capacidade enorme de estocagem interna de munição.

O desenvolvimento de sensores bem como a virtualização do campo de batalha inseridos no ambiente VUCA está redesenhando esse modelo de VC conferindo-a grande poder de obter e transmitir informações, reduzida guarnição e seu armamento para emprego seletivo, especialmente em ambientes de cidades.

Em 2019 foi apresentado o conceito da VC Carmel a ser testado nas Forças de Defesa de Israel que agrega todos os conceitos acima descritos com tecnologia de última geração.

Figura 06- VC Carmel

  • VC Ef Max 1000 até 4000m

Tais VC são a expressão máxima do tiro direto e seu poder de destruição está simbioticamente ligado à precisão dos sistemas de controle de tiro (SCT) instalados a bordo.

Acalorados debates ocorrem no sentido de qual seria o limite para tais calibres, chegando até com a construção e testes de um canhão 140 mm integrado em um tank francês.

Figura 07- Canhão 140mm com munições 140 mm e 120 mm, em detalhe

É necessário que se remeta a função principal de uma VC que é enfrentar semelhantes com objetivo de destruir ou danificar o alvo a ponto de retirá-lo de combate.

Com isso cresce de importância o entendimento do contexto em que se insere e quais capacidades são desejadas das VC a luz de um quadro plausível de ameaças.

As vultosas somas financeiras que demandam os atuais VC que normalmente compõem um força de tanks fez com que muitos países reconsiderassem o tamanho de suas forças no inicio do século XXI.

Diferente de VC com canhões a partir de 25 mm o fator quantidade de munição é precioso com um calibre maior pois a capacidade de estocar munições bem como o processo de engajamento torna-se mais complexo.

Os optronicos e sensores embarcados são de grande importância em sua qualidade mas se limitam pelo fator humano pois a capacidade de observar e engajar alvos, com munições não guiadas, requer uma considerável carga de treinamento.

As experiências obtidas nos encontros de tanks na Desert Storm (1991), ilustram como a capacidade das guarnições do coalizão americana destruiu a força blindada de Saddam Hussein, uma das maiores a época.

Figura 08- VC destruída Desert Storm (1991)

  1. CONCLUSÕES

Os frenéticos desenvolvimentos e soluções apresentadas, pela indústria de defesa, são decorrentes da apresentação da VC T-14 Armata, na parada do dia da vitória em Moscou no ano de 2015.

É impossível quase atestar a qualidade e reais capacidades dos equipamentos soviético-russos pois seguem uma escola própria de construção e doutrina que tem o principio de guerra Massa como fundamental.

Os mísseis anticarro são também uma variável muito difícil de avaliar nesta equação pois a adição de tais equipamentos nas VC pode aumentar sua Ef Max mas também transporta uma quantidade finita deste material que demanda um recarga não tão simples.

A classificação apresentada é estritamente ligada à capacidade de tiro dos sistemas das VC que como apresentado podem ter outros implementos como blindagem e meios de deslocamento.

A principal finalidade de uma VC é destruir seu semelhante no campo de batalha e danificar o máximo possível sistemas mais resistentes ou com maior alcance.

O contexto geopolítico  em que as Forças estão inseridas irão determinar as capacidades necessárias para a estruturação de uma frota que possua sistemas adequados para as necessidades nacionais.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Exército. EB20-MF-10.102 Doutrina Militar Terrestre. 2. ed. Brasília, DF, 2019.

DEFESA. Ministério. MD 33-M-02 : Manual de Abreviaturas, Siglas, Símbolos e Convenções Cartográficas das Forças Armadas. 1. ed. Brasília, DF, 2008.

DICTIONARY. Cavalry meaning and origin. Disponível em https://www.etymonline.com/word/cavalry/>) Acesso em: 13 Mar. 2020.

EUA.  CALL. Weapon Effect Newsletters. 03.32. Fort Leavenworth, KS, 2003.

EUA. Congressional Research Service .The Army’s Optionally Manned Fighting Vehicle (OMFV) Program: Background and Issues for Congress. Washington, DC, 2019.

EUA. Congressional Research Service. The Army’s M-1 Abrams, M-2/M-3 Bradley, and M-1126 Stryker: Background and Issues for Congress. Washington,DC,2016.

EUA. TRADOC. Multi-Domain Battle/ TRADOC Big 6+1LTC Chasse (CARD). Fort Eustis, VA, 2015

EUA. TRADOC. US Army Combat Vehicle Modernization Strategy. Fort Eustis, VA, 2015.

EUA.  US Army HET. Who first originated the term VUCA (Volatility, Uncertainty, Complexity and Ambiguity. Disponível em <https://www. http://usawc.libanswers.com/faq/84869/>) Acesso em: 13 Mar. 2020.

EUA.  The National Interest. The Army is testing a new 50mm Cannon. Disponível em < https://nationalinterest.org/blog/buzz/army-testing-new-50mm-cannon-52182>) Acesso em: 13 Mar. 2020.

FRANÇA. Scorpion: France’s collaborative combat platform in action. Disponível em < https://www.army-technology.com/features/scorpion-frances-collaborative-combat-platform-in-action/>) Acesso em: 13 Mar. 2020.

PORTELLA, J.V Alves. Os Blindados Através dos Séculos. BIBLIEx, Rio de Janeiro, RJ, 1964.

TZU, Sun. A Arte da Guerra. L&PM Editores, 2000.

What is your reaction?

Excited
0
Happy
0
In Love
0
Not Sure
0
Silly
0
Roberto Caiafa
Jornalista e Repórter Fotográfico especializado na Editoria de Defesa com mais de 15 anos de experiência profissional. Corresponsal no Brasil de Infodefensa desde abril de 2011. Youtube Canal Caiafamaster (https://www.youtube.com/c/caiafamaster)

You may also like

1 Comment

  1. parabens pelo excelente artigo muito claro e objetivo, gostaria que voce caro amigo caifa coloque a opçao de compartilhar por e-mail seus artigos.

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado.

More in:DESTAQUE