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Os Tanks vão resistir (Uma visão Tanker por Santiago Garcia)

O presente artigo, de autoria do capitão de cavalaria Adriano Santiago Garcia*, foi publicado na prestigiosa revista Armor Magazine, editada pelo Fort Benning, Exército dos Estados Unidos da América

O fim da Guerra Fria em 1989 deu origem a muitos profetas, com diferentes discursos, mas no final, todos traçaram a mesma conclusão trágica: Estejais todos cientes a época do Main Battle Tank (MBT) esta acabada.

A anunciada catástrofe, que os MBT não eram úteis em operações de não guerra mais especificamente em áreas humanizadas contra inimigos ou forças irregulares foram desconstruídas em exemplos como operações dos Bálcãs na Bósnia-Herzegovina (1992-1995) e as forças internacionais de Kosovo (1999) contando essas com vasto material blindado incluindo tanks

O uso de veículos aéreos não tripulados (VANT) com cargas explosivas atreladas a sua estrutura rememorando a tática do “vento sagrado”(kamikaze), usada por Forças do Azerbaijão durante o conflito de Nagorno-Karabakh significava, agora, definitivamente a sentença de morte para as armas blindadas.

A força blindada também tem seus críticos internos não sendo difícil encontrar quem concorde com as afirmações de fim da era dos blindados baseando-se em estatísticas e conhecimento académico contudo sem aplicação prática.

Em seu livro “The Rommel Papers” Sir B.H. Liddell Hart detalhou como o Marechal de Campo alemão, a famosa “Raposa do Deserto”, dividiu os comandantes em duas categorias: “soldados da gabinete” de escritório e “tropeiros” .

“Soldados da gabinete” vêm a guerra como um problema puramente intelectual; eles exigem energia daqueles no front, dirigem as tropas (não deles próprios) e culpam os outros por suas falhas.

Os “tropeiros” também têm conhecimento, mas a poeira em suas botas lhes dá experiência e energia para lutar com inteligência, preservar suas tropas como o primeiro imperativo do objetivo de missão.

O objetivo deste artigo é apresentar, em linhas gerais mais práticas, do ponto de vista de Oficial de Tático “tropeiro” ,durante as fases do emprego de uma Força-tarefa (FT) Blindada, associarem ações vitais ao sucesso com o planejamento em cada fase da Operação.

O que não é possível mudar

As forças blindadas são, desde o final da Primeira Guerra Mundial, a ponta da lança de toda operação regular devido às suas três características principais: mobilidade, poder de fogo e proteção.

No entanto, embora este “núcleo duro” pareça uma combinação invencível, a criação de artefatos oportunistas, cujo objetivo simples é atirar e desaparecer, causando baixas materiais, em pessoal ou ambas de maneira a causar fricções no decorrer da operação estimulando a confusão ou a desistência da parte com a iniciativa

Os tripulantes devem reconhecer que em um cenário de batalha irregular, o uso de dispositivos explosivos improvisados como minas, carros ou coletes explosivos e agora os já mencionados drones explosivos voadores são as tentativas desesperadas  de se conter os movimentos blindados (especialmente tanques) .

Mitigar esse desespero pode estar na organização de tarefas dentro da própria FT pois apesar de devido às grandes concentrações de veículos e tropa parecer o  ponto fraco das FT blindadas a solução para rechaçar tais ameaças está dentro de sua própria organização de combate: a combinação tanque / fuzileiro.

A proteção cerrada dos blindados não é novidade pois o Capitão José Pessoa de Albuquerque, primeiro “tanquista” brasileiro que serviu no 4º Regimento de Dragões do Exército francês durante a Primeira Guerra Mundial, observou e relatou em seu livro “Os Tanks na Guerra Europeia” que, mesmo naquela fase inicial do combate de tanques, os blindados precisavam de proteção aproximada e em contante ligação do binômio supracitado.

Apoio ao Combate

Os elementos de movimento e manobra precisam obrigatoriamente de uma subunidade (SU) (Companhia ou Esquadrão) de apoio direto e aproximado com vias a continuidade e sustentar as operações desenvolvidas

Na organização das Forças-Tarefa Blindadas no Brasil tal subunidade se organiza com os seguintes Pelotões Orgânicos:

  • Seção de Comando do Comante da SU;
  • Pelotão de Comando da FT;
  • Pelotão de morteiro pesado, 120 mm;
  • Pelotão de reconhecimento leve;
  • Pelotão de antitanque;
  • Pelotão de comando e controle;
  • Pelotão de Logística ou Suprimento;
  • Pelotão de manutenção; e
  • Pelotão de Apoio Aproximado de Saúde.

Tal SU em apoio com extrema coordenação as tropas de Tank, Véiculos de Combate de Infantaria e os Fuzileiros propriamente são suficientes para virar a mesa contra as ameaças fugazes e  oportunistas.

Defesa aérea

É fácil perceber que a estrutura de apoio ao combate acima descrita está sem proteção aérea orgânica logo os aspectos abaixo serão cruciais na distribuição de tarefas durante todas as fases da operação a ser desenvolvida:

  • Não coordenar quem está no comando da defesa aérea de suas tropas e fazer as ligações necessárias ou mesmo pedir para receber essas tropas sob seu comando direto será uma sentença de morte antes mesmo do início dos movimentos
  • Para tornar o escudo aéreo mais espesso, é importante que a tripulação de pelo menos um Veículo de Combate de Infantaria (VBCI) em cada pelotão de fuzileiros mantenha os olhos no céu buscando ameaças.
  • Cada companhia de fuzileiros blindados também precisa de um pelotão de apoio equipado com dois veículos leves equipes de metralhadoras de preferência com Sistemas de Busca e Aquisição de Ameaças, como visores de aumento de luz residual ou termal, duas equipes de lançadores de foguetes, tais como Armamentos “N-LAW” ou “Carl Gustaf” e, ainda dois morteiros de 81 mm que podem fornecer cobertura de fogo e fumaça muito perto da ação, aumentando a segurança. Em suas memórias, Rommel escreveu que as diferenças entre as frentes oriental e ocidental, e uma com maior ênfase, eram totais dominação aérea na Frente Ocidental

Elementos-chave no planejamento

O sucesso de uma FT Blindada consiste de um coluio de eventos que passam por meio da organização de tarefas muito bem definida e planejada e se somam ao planejamento sempre em observância aos princípios da guerra.

Os princípios da guerra são preceitos filosóficos aprendidos em Academias e Escolas Militares que quando combinados com táticas, técnicas e procedimentos (TTPs) fornecem bases do planejamento da tropa que se está operando.

Com múltiplas ameaças e o campo de batalha irregular, os seguintes princípios devem estar em sincronia com o trabalho de planejamento:

  • Uma visão clara de seu objetivo principal;
  • Segurança para seus elementos provedores de Suprimento, Manutenção, Salvamento e Saúde bem como a auto-defesa das forças blindadas.

Olhando através do terreno

A FT Blindada está muito distante dos conceitos de movimentos silenciosos e cobertos dado, obviamente, ao do tamanho dos veículos, ruído dos motores e efeitos derivados do movimento como nuvens de poeira..

Mitigar tais deficiências é uma TTP a ser treinada a exaustão, principalmente com um rigoroso distanciamento entre as viaturas, além é claro de cuidadoso estudo dos itinerários a serem utilizados e das condições climáticas, de luminosidade e neblina.

Durante a ocupação da cabeça de ponte Aliada nas prias da Normandia em 1944 a força oponente alemã conseguiu com relativo sucesso realizar deslocamentos de suas divisões blindadas, que estavam longe da zona de ação, utilizando da escuridão e da vegetação do interior da França.

A evolução dos óculos de visão noturna e dos equipamentos de visão térmica está aumentando as formas de conduzir operações regulares à noite, como provaram as Operações Tempestade no Deserto (1991) e Liberdade do Iraque (2003).

Contudo esse tipo de câmera ou binóculo, antes um privilégio apenas para forças muito ricas, está se tornando mais acessível a cada dia nos celulares tipo Smartphone ou como excedentes de equipamento militar, chegando nas mãos erradas todos os dias.

Antes ainda de qualquer lagarta deixar seus rastros no solo, é absolutamente necessário obter as informações mais precisas possíveis sobre as condições do terreno.

Mas não se pode cometer o erro de usar recursos gráficos, como cartas topográficas e imagens de satélite, pois estudá-los permitirá a compreensão de cerca de apenas 10% do ambiente logo abrir mão do reconhecimento realizado no local, com os recursos possíveis disponíveis podem ser a diferença entre sucesso e fracasso.

O reconhecimento da área do objetivo principal da operação é normalmente incumbência de Forças de Atuação Especiais ou em cooperação com tropas de comandos e normalmente é impossível aos Comandantes, Oficiais e Sargentos, de conseguir informações pormenorizadas.

Outros princípios a serem observados são:

  • Plano simples, ensaios, sincronizações e maciço uso de TTP de combate serão o “core” da execução.
  • Observação fiel das regras de engajamento, pois opinião pública tornou-se um fator que pode contribuir decisivamente para o êxito e ainda buscar diretivas de membros de operações psicológicas são de grande importância ao militar de linha de frente.

O “Tropeiro” blindado deve entender que os danos colaterais advindos dos disparos das armas orgânicas da FT como Tanks , VBCIs e veículos blindados podem destruir ou danificar propriedades civis ou de serviço de atendimento público.

Também é muito importante localizar no terreno o local para criar um ataque diversionário de  modo a levar o inimigo a uma conclusão errada sobre onde e quais são suas intenções.

A integração dos militares da força de ataque é algo vital e até já esperado uma vez que já se conhecem e realizaram exercícios de preparação e ensaios antes de entrar em combate real.

Os elementos suprimento, manutenção e saúde por não serem orgânicos dos elementos de manobra devem também ser integrados uma vez esses que cedem turmas ou módulos de apoio direto ou até em subordinação a tropa apoiada dependendo da demanda da operação portanto:

  • É necessário a maior atenção possível com a manutenção dos meios de combate pois inevitavelmente ocorrerão baixas de material e viaturas sem que ocorra nenhum contato com o inimigo.
  • Os elementos de abastecimento precisam estar sob o “guarda-chuva de ferro”, logo os elementos de suprimento, manutenção, salvamento e saúde devem ser protegidos por outras tropas com meios suficientes para isso.
  • É comum manter os trens de combate a uma distância relativa; isso é considerado mais seguro da artilharia inimiga ou das ações de guerrilha contudo aproximar tais estruturas das peças de combate apoiadas pode ser um risco assumido em uma mentalidade ofensiva.
  • O uso de fogo indireto de morteiros médios e pesados ​​empurrará a resistência inimiga para trás, permitindo a penetração uma área avançada para garantir o objetivo e obter seu abastecimento mais próximo

Em ações em ambiente urbano, longos corredores de abastecimento serão um alvo atraente para os caçadores oportunistas, como aconteceu durante a operação “Thunder Run” (Iraque 2004) no assalto a citadela governamental de Saddam Hussein em Bagdá.

Consolidar

Haverá três atividades críticas a serem feitas para consolidar o objetivo:

  • A primeira será prevenir o contra-ataque, colocando postos de observação perto o suficiente para ver o compartimento ou distrito próximo (então esta será uma tarefa principalmente para sistemas de armas de tiro tenso como os Tanks, VBCIs e fuzileiros desembarcados em postos de vigia).
  • O segundo é “limpar” das últimas resistências o objetivo e reabasteça o mais rápido que puder, dando relatórios precisos ao alto comando sobre a situação.
  • E, finalmente, evacue os feridos e prisioneiros usando o pelotão de reconhecimento como um escolta de veículos das ambulâncias e veículos com prisioneiros.

Conclusão

A desgraça das forças blindadas foi prevista por especialistas há muito tempo, mesmo antes de sua história começar em 1917.

No entanto, a FT Blindada está enfrentando uma oportunidade de remodelagem para as máquinas mas não para o conceito em si fundamentado em mobilidade, potência de fogo e proteção.

É muito possível em um futuro próximo que tanks não tripulados trabalhem em cooperação com veículos mais leves em relação aos pesos pesados de hoje.

As duas operações no Iraque (1991 e 2003) provaram que em campo aberto ou em cenários urbanos, a força-tarefa blindada ainda é a chave para proteger o solo e avançar.

Não há segredos para alcançar a vitória  apenas planejamento de treinamento sério e constante pensamento autocrítico, sempre tentando entender como o inimigo vai explorar suas fraquezas e superar suas tropas.

*CPT Adriano Santiago Garcia is an officer in the Brazilian army, commanding Logistics and Headquarters Company, 5 Light Reconnaissance Battalion. Other assignments have included logistics-battalion officer, 3rd Tank Battalion, Ponta Grossa, Brazil; tank-company leader (Leopard 1A5 Brazilian model), 3rd Tank Battalion, Ponta Grossa; Leopard 1A5 tank and master-gunner senior instructor; chief of Leopard 1A5 BR training cell, master-gunner adviser of operations officer and battalion commander, 3rd Tank Battalion, Ponta Grossa; and tank-platoon leader (Leopard 1A1), 3rd Tank Battalion, Ponta Grossa. CPT Garcia’s military schooling includes Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (Brazil’s captain’s maneuver course) and Academia Militar das Agulhas Negras (Brazil’s army military academy).

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Roberto Caiafa
Jornalista e Repórter Fotográfico especializado na Editoria de Defesa com mais de 15 anos de experiência profissional. Corresponsal no Brasil de Infodefensa desde abril de 2011. Youtube Canal Caiafamaster (https://www.youtube.com/c/caiafamaster)

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