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O ANTIGO PORTA-AVIÕES FOCH SERÁ TRANSFORMADO EM UM HOTEL DE LUXO?

  • Comprado pelo Brasil há quase 20 anos, este ex-nau-capitânea da marinha francesa foi vendido para um ferro-velho turco, mas seu desmantelamento é um problema e um empresário alemão se propõe a transformá-lo em um complexo hoteleiro único no gênero.

Será que o porta-aviões Foch/São Paulo vai mesmo sofrer um bloque no porto de Izmir?

Por ora atracado no Brasil, esse navio de guerra de 265 metros deve ser rebocado no final do ano para a Turquia para ser entregue ao estaleiro Sök Denizcilik que deve desmontá-lo para revender suas 24 mil toneladas de aço.

O ferro-velho foi adquirido por US $ 1,6 milhão em um leilão aberto pela Marinha do Brasil.

Para grande desgosto dos ex-membros de sua tripulação, que tentaram, em vão, durante anos, salvá-lo e transformá-lo em um museu.

Agora, um empresário alemão sonha em dar uma nova vida ao casco que sobrou do outrora nau-capitânea.

O projeto de Udo Stern, ex-membro do conselho de administração da Lufthansa, é transformar este navio de guerra aposentado em um luxuoso super iate-porta-aviões resort offshore.

Udo Stern, que busca reunir investidores para financiar seu projeto, planeja atracar seu palácio flutuante no mar nas águas relativamente calmas do Mar Negro.

As dimensões excepcionais do venerável porta-aviões conferem ao seu projeto um caráter completamente novo.

Sob a estação da tripulação, no hangar de 13.800 metros quadrados, Udi Stern planeja instalar uma sala de concertos, um cassino, cinemas, bares e restaurantes.

As 55 cabines dos oficiais serão transformadas em quartos.

Mas o destaque do projeto está no convoo anteriormente usado pelos aviões e helicópteros, convertido em um campo de golfe de nove buracos que pode se transformar em uma pista de esqui coberta de neve artificial (elevada através de atuadores hidráulicos) para a prática de esportes de inverno nos meses mais frios do ano!

Helicópteros e táxis voadores também podem aproveitar uma das plataformas de pouso para deixar os clientes.

Resta saber quem vai financiar este projeto faraônico.

Udo Stern não dá detalhes sobre o custo estimado deste projeto, mas conta na casa das centenas de milhões de euros. O navio será rebocado até um estaleiro especializado para a remoção do amianto antes de sua metamorfose completa.

O empresário alemão dirigia a Blue Wings, uma companhia aérea que entrou em liquidação há uma década.

Ele agora é o chefe da Blue Star Cargo, uma empresa de frete marítimo com sede em Düsseldorf.

Para arrecadar fundos, conta com o apoio da iniciativa Düsseldorf, clube de empresários alemães do qual é porta-voz.

A França terá a última palavra

Ao vender o navio ao Brasil, a França de fato impôs uma cláusula. Após a carreira militar, o Foch, rebatizado São Paulo pelos brasileiros, só pôde ser vendido para ser desmontado.

Em nenhuma circunstância deverá ser possível renová-lo para serviço de outras Forças Armadas. É, portanto, impossível transformá-lo em um centro de treinamento militar, conforme proposto, por exemplo, pelo contra-almirante Mustafa Cihat Yayci, ex-chefe do Estado-Maior da Marinha turca e ex-adido de defesa da Embaixada da Turquia em Moscou.

“O contrato de venda no Brasil inclui uma cláusula de não exportação. O casco permanece de sua propriedade até o desmonte e não pode ser vendido a ninguém e para qualquer fim sem um acordo da França. Até o momento, não recebemos nenhum pedido”.

Nesse ínterim, o navio ainda está no Brasil e pode ficar no Rio ainda por muito tempo.

Representantes da sociedade civil de Izmir, autoridades eleitas, técnicos e sindicatos se opõem à chegada do navio à Turquia.

Eles temem que seu corte libere resíduos poluentes (amianto e derivados de petróleo).

Eles também apontam para a falta de transparência sobre como esses resíduos serão gerenciados.

De acordo com a ONG Shipbreaking Platform, o inventário de materiais perigosos não foi apresentado e nenhuma auditoria independente foi realizada.

Ela chegou a enviar uma carta ao Ministério do Meio Ambiente e Urbanização da Turquia para alertá-los sobre a grande quantidade de material tóxico presente no porta-aviões.

Um retiro extravagante

Por seu turno, o ministro dos Transportes e Infra-estruturas, Adil Karaismailoğlu, afirma não ter recebido “nenhum pedido de autorização do armador ou da agência ligada ao navio em questão”, pode ler-se no site turco Sendika .

Um porta-voz do comitê parlamentar de meio ambiente recusa que Izmir seja “transformada em uma lixeira para o mundo”. Segundo ele, o navio conteria 600 toneladas de amianto.

Esse temor já havia sido levantado na França, por ex-tripulantes franceses e brasileiros que há anos acompanham o destino da embarcação. O temor é que ele sofra o destino do Clémenceau, o navio irmão do Foch, que foi desmontado em 2010 no Reino Unido.

“Enquanto o primeiro golpe da tocha não for dado, não vamos largá-lo “, disse Toulonnais Romain Veyrié, ex-tripulante do Foch.

Este porta-aviões zarpou pela primeira vez em 1963 antes de ser “aposentado” da Marinha do Brasil em 2018.

Terminará seus dias no Mar Negro com turistas abastados a bordo?

O Projeto Alemão: Loucura?

Se você puder projetar sua própria casa dos sonhos, então a maioria das pessoas pensará em uma casa clássica em algum lugar em um pedaço de terra plana.

Esta ideia simplesmente não vai funcionar para a Mitsi, a empresa de Udo Stern.

Stern decidiu desenvolver este conceito em alto mar e construir o primeiro Iate Porta-Aviões do mundo.

Obviamente, isto não poderia parecer um porta-aviões tradicional e o projeto apresenta múltiplos decks intercambiáveis, cada um com seu próprio tema.

Como um canivete suíço, os conveses podem ser trocados entre uma pista de pouso e um campo de golfe, útil quando o capitão milionário se aborrece.

900 Toneladas de Problemas

Os porta-aviões Clemenceau e Foch formaram a espinha dorsal da segunda maior força aérea embarcada do mundo na segunda metade da Guerra Fria.

Ambas as embarcações eram de projeto CATOBAR (Catapult Assisted Take-Off Barrier Arrested Recovery), que era um sistema usado para o lançamento e recuperação de aeronaves do convés dos porta-aviões.

O navio pode navegar a uma velocidade máxima de 30kt (34 mph), e acomodar 1.920 pessoas, incluindo a tripulação, grupo aéreo e tropas.

A venda do casco do Porta-Aviões São Paulo tem gerado muita controvérsia

O desmantelamento do navio de origem francesa provocou uma discussão sobre o risco de poluição associado ao processo de corte de sucata.

“Os tribunais franceses pararam o desmantelamento do porta-aviões Clemenceau carregado de amianto na praia de Alang, Índia, em 2006. Quinze anos depois, a França enfrenta uma segunda dor de cabeça tóxica, disse a ONG Shipbreaking Platform em um comunicado à imprensa.

“Estima-se que a bordo do navio haja aproximadamente 900 toneladas de amianto e materiais contendo amianto, centenas de toneladas de materiais contendo PCB e grandes quantidades de metais pesados”.

“As grandes quantidades de amianto ainda a bordo do navio de São Paulo precisam ser manuseadas e descartadas sem expor os trabalhadores e comunidades vizinhas ao risco de câncer”, disse Annie Thebaud-Mony, diretora de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica em Paris. “A cláusula contratual na venda da Foch para o Brasil dá à França a última palavra onde o porta-aviões pode ser desmontado”. As autoridades francesas devem dirigir o navio irmão do Clemeceau para uma instalação aprovada pela UE – qualquer outra coisa seria um escândalo”, disse ela.

O Instituto São Paulo-Foch no Brasil – um grupo de ex-militares brasileiros e franceses – espera impedir que o porta-aviões São Paulo seja desmontado.

Eles querem transformá-lo em um museu.

“Seria muito mais rentável e benéfico do que o desmantelamento do navio”. Aproximadamente 600 toneladas de amianto – perigoso para a saúde humana e a natureza – estão encapsuladas no navio. Tal acordo diminuiria as despesas de desmantelamento do navio, e rebocá-lo até o Mediterrâneo será muito caro”.

A ONG Shipbreaking Platform enviou uma carta para o Ministério do Meio Ambiente e Urbanização da Turquia em junho de 2021.

“O porta-aviões não deve ser autorizado a deixar o Brasil até e a menos que o IHM [certificado de Inventário de Materiais Perigosos] seja completado. [A venda do navio] deve, portanto, ser anulada e sujeita a rebeldia, com base em restrições legais e uma IHM adequada e precisa”, disse a ONG.

O processo de desmantelamento deve ocorrer nas instalações de reciclagem de navios do distrito de Aliaga.

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Roberto Caiafa
Jornalista e Repórter Fotográfico especializado na Editoria de Defesa com mais de 15 anos de experiência profissional. Corresponsal no Brasil de Infodefensa desde abril de 2011. Youtube Canal Caiafamaster (https://www.youtube.com/c/caiafamaster)

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